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Daniel Silva "A Terra Prometida pode estar nos EUA" PDF Imprimir E-mail
Entrevistas - Escritores

Elmano Madail e John Earle (JN 22 de Julho de 2006)

  Image Aos 45 anos, Daniel Silva, judeu educado como católico pela família de imigrantes açorianos nos EUA que o adoptou, é um dos escritores norte-americanos mais lidos do momento, com presença assídua nas tabelas do The New Work Times. O êxito levou-o a deixar a carreira jornalística, tendo sido produtor executivo na CNN e correspondente no Cairo, tendo feito a cobertura de conflitos mundiais, como a guerra Irão-Iraque. Jornal de Notícias - O "Príncipe de fogo" começa com um grande atentado à embaixada de Israel em Roma, na sequência de outros dois em Buenos Aires e Istambul. Foi um reflexo à tragédia do 11 de Setembro, uma evocação do hiperterrorismo?

Não. O atentado de Roma do romance é obra do nacionalismo palestiniano, e não da "jihad" global. Mas os terroristas do Setembro Negro (que massacrou a equipa israelita nos Jogos Olímpicos de Munique, em Setembro de 1972), foram os precursores do movimento hiperterrorista actual, por terem actuado em função do espectáculo, da mediatização do seu gesto.



No romance, retrata Arafat como manipulador, mentiroso e adepto do terrorismo. De onde vem essa aversão ao líder palestiniano?

Este é já o sexto livro de uma série em que o protagonista, Gabriel Allon, começou a carreira de agente secreto como caçador dos terroristas do "Setembro Negro", uma unidade secreta, terrorista, criada por Arafat dentro da Fatah. Arafat era o líder do movimento nacionalista palestiniano, mas que usava o terrorismo para alcançar os seus objectivos, o que é indefensável. E mesmo já depois de assumir a Presidência da Autoridade Nacional Palestiniana, autorizou o uso do terrorismo contra inocentes israelitas. Assisti às negociações de Oslo de 1993, e tive fé. Acreditei que Arafat queria a paz. E ninguém ficou mais desapontado do que eu quando ele escolheu afastar-se e enveredar pela Intifada.



Os judeus, após serem alvo de ferozes perseguições ao longo da História, estão sujeitos ao assassinato de civis em Israel. Mas agora assistimos a bombardeamentos massivos que matam centenas de libaneses inocentes. Não será moralmente condenável a reacção de Israel, à luz da sua própria História?

Há diferenças entre atitudes proactivas e reactivas; há diferenças abissais entre o Hezbollah, que é o agressor e pretende, ao lançar mísseis sobre Israel, provocar deliberadamente baixas civis, e Israel, que está a reagir à ameaça e quer eliminá-la. E o Hezbollah esconde os seus arsenais e militantes entre os civis, usa-os como escudos. Estou horrorizado com o sofrimentos do povo libanês, mas foi o Hezbollah que provocou a resposta israelita e se escondeu entre os civis, sabendo que poderiam ser visados. Se é verdade que Israel está a bombardear o Líbano, a culpa deverá ser atribuída ao Hezbollah, à Síria e ao Irão (embora os europeus tendam a esquecê-lo), que usam aquele país como plataforma de ataque a Israel e aos israelitas.



Não seria mais útil optar pela negociação, ainda que indirecta?

Quer que Israel se sente à espera que o Mundo actue através do Direito Internacional? Bom, o problema é que o Hezbollah não tem credibilidade como negociador, porque a ONU aprovou uma resolução em Septembro de 2004, na qual exigia a desmobilização e desarmamento de todas as milícias libaneses, o que sucedeu à excepção do Hezbollah. Assim, não há razão para achar que tal possa acontecer após este conflito. O Hezbollah terá mesmo que ser destruído ou, pelo menos, enfraquecido na capacidade operacional.



Vislumbra alguma solução pacífica para o conflito israelo-árabe, dada esta crispação, agravada pela retórica anti-semita de Teerão?

Sou muito céptico, porque o que está a ocorrer no Líbano indicia a radicalização de posições. O melhor seria Israel deixar unilateralmente a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, tal como propõe o "plano de separação" de Ariel Sharon, que será, agora, muito difícil de prosseguir, porque o contexto modificou-se. Esta crise reforçará a ala mais dura do Governo israelita, e mesmo a opinião pública, que não pode viver sob a ameaça do terrorismo nuclear do Irão, e Telavive poderá agir militarmente para garantir que Teerão não terá os meios para atacar - se disparasse uma ogiva nuclear sobre Telavive, arrasaria grande parte da população do país...



Gabriel Allon é um ser compósito um assassino relutante, que embora elimine os inimigos com eficácia, para defender a pátria e os seus, reflecte sobre a tragédia do Médio Oriente e persegue a utopia da convivência pacífica com os árabes...

Tentei criar esse efeito. Acredito que o povo de Israel quer apenas viver em paz no seu país, dentro das fronteiras reconhecidas internacionalmente, o que não lhe foi possível desde que foi criado. Gabriel reflecte essa condição absurda quer viver a sua vida, entregar-se à pintura e ao restauro de Arte Antiga, mas não pode. Ele é o arquétipo da segunda geração de israelitas; Ari Shamron (judeu de origem polaca que treinou Gabriel) será o arquétipo da primeira. Gabriel percepciona melhor os seus inimigos do que Shamron, percebe que eles também sofrem, enquanto que o envolvimento de Shamron com Israel é quase orgânico e nos árabes vê apenas inimigos.



O "judeu errante", o da diáspora, poderá encontrar a Terra Prometida entre o Jordão e o Mar Morto, ou ela estará noutro lugar?

Não será em Israel. Mas poderá fazê-lo nos EUA, onde os judeus têm paz. Nos EUA temos comunidades judaicas florescentes e, embora haja algum anti-semitismo (os imbecis estão em todo o lado...), não creio que tal se faça sentir em Los Angeles, Washington ou Nova Iorque, por exemplo.



Em que medida é que ser educado por uma família portuguesa contribuiu para criar Gabriel, que dá tanta importância à lealdade e fidelidade?

Conforme vou envelhecendo, fico mais sensível aos valores da lealdade e fidelidade. E à família. Essa é a minha herança portuguesa vivi numa comunidade de pescadores portugueses, imigrantes dos Açores, em Massachusetts, e aprendi com eles o valor do trabalho duro, da solidariedade e da Fé em Deus.
Última Actualização ( Sábado, 22 Julho 2006 )
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