O Presidente da República destacou hoje o papel dos escritores como
defensores da língua portuguesa na era da comunicação, onde impera a imagem e o
imediatismo, durante a entrega do Grande Prémio Romance e Novela 2005.O galardão da Associação Portuguesa de Escritores (APE) foi hoje entregue ao
escritor Francisco José Viegas pelo romance "Longe de Manaus", seleccionado
entre 90 obras concorrentes.
"Na era da comunicação, em que a escrita se estiliza e compete com formas de
transmitir imediatas e formatadas, em que a imagem ocupa um espaço dominador e
atraente, os escritores são os mais qualificados depositários desse bem
inestimável que é a língua de um povo", disse Aníbal Cavaco Silva.
O Presidente da República sublinhou ainda que são os escritores que preservam
a língua, a afeiçoam e a adaptam às novas realidades. "São eles que a renovam,
em suma, criando a partir das raízes sólidas novos modos de exprimir e
comunicar", disse.
O vencedor do prémio de romance e novela da APE, indo ao encontro das
palavras do Presidente da República, defendeu também a "necessidade de respeitar
o trabalho dos mestres da língua portuguesa, da cultura portuguesa".
Francisco José Viegas foi, no entanto, mais longe e alertou para a
importância de "ensinar mais literatura nas escolas" porque, disse, é
"impossível estudar português ou valorizar a língua portuguesa sem valorizar a
literatura portuguesa".
"A literatura portuguesa é a base e perpetua a língua portuguesa",
acrescentou o escritor que recebeu o galardão das mãos do Presidente da
República, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
A distinção foi "uma surpresa" para o escritor que é o mais jovem premiado
pela APE, com 44 anos. Em 2004, o prémio foi atribuído ao escritor Vasco Graça
Moura Francisco José Viegas confessou que o romance "Longe de Manaus" foi o
livro em que mais trabalhou e se empenhou, que lhe deu mais prazer escrever e
que sente "muita vaidade" na obra.
O escritor sublinhou que é um "contador de «estórias»" e simplesmente isso,
não querendo transmitir apreciações sobre a realidade portuguesa como sempre foi
hábito dos escritores.
"Longe de Manaus" relata a «estória» da morte de um indivíduo sem identidade,
num local sem identidade que vai levar a personagem principal, um inspector, a
fazer "uma peregrinação por vários lugares onde os portugueses estiveram", como
África, onde muitas vezes "se sentiram sós e se perderam também".
Cavaco Silva qualificou o escritor como "um viajante das diferentes formas de
expressão, um homem da comunicação" na medida em que "abarca as mais variadas
formas de transmitir opiniões, sentimentos experiências, o modo como vê ou
recria o que suscita interesse e inspira".
Francisco José Viegas, formado em Letras pela Universidade de Lisboa, foi
professor de Linguística na Universidade de Évora, e tem trabalhado no
jornalismo, nomeadamente no Jornal de Notícias e no Diário de Notícias e nas
revistas "Visão", "Ler" e "Grande Reportagem".
Em 1983 estreou-se na poesia com "Olhos de água", e em 1987 publicou o seu
primeiro romance, "Regresso por um rio", a que se seguiram ficções policiais
como "Crime em Ponta Delgada" (1989), "Morte no Estádio" (1991) ou "Um crime na
exposição" (1998).
Além do romance e da poesia, Francisco José Viegas é ainda autor de peças de
teatro e tem já vários livros publicados na Alemanha, no Brasil e em França.
in RTP.pt
|