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Introdução
A narração é um relato centrado num
facto ou acontecimento; há personagens a actuar e um narrador que relata a acção. O tempo e o ambiente (ou cenário)
são outros elementos importantes na estrutura da narração. O Enredo
O enredo, ou trama, ou intriga, é, podemos dizer, o esqueleto da narrativa,
aquilo que dá sustentação à história, ou seja, é o desenrolar dos
acontecimentos. Geralmente, o enredo está centrado num conflito, responsável
pelo nível de tensão da narrativa; podemos ter um conflito entre o homem e o
meio natural (como ocorre em alguns romances modernistas), entre o homem e o
meio social, até chegarmos a narrativas que colocam o homem contra si próprio
(como ocorre em romances introspectivos).
Em O Ateneu o enredo desenvolve-se a partir da entrada do menino Sérgio, aos onze anos de idade, no colégio interno.
Colocado diante de um mundo diferente, sem estar preparado para isso, o menino
vivência uma série de experiências e acontecimentos que culminam com o incêndio
e a consequente destruição do colégio.
O Ambiente
O ambiente é o espaço por onde circulam personagens e se desenrola o enredo.
Em alguns casos, é de importância tão fundamental que se transforma em
personagem, como no caso do colégio interno em O Ateneu, de Raul Pompéia, e da habitação colectiva em O
cortiço, de Aluísio Azevedo.
O Tempo
Observe, no fragmento de O Ateneu, como o tempo é um elemento
importante: "Eu tinha onze anos", afirma o
personagem-narrador (perceba a expressividade do pronome pessoal e do verbo no
pretérito). Fica caracterizada, assim, uma narrativa de carácter memorialista,
ou seja, o tempo da acção é anterior ao tempo da narração. O personagem-narrador
na sua vida adulta narra factos acontecidos durante a sua
pré-adolescência.
As Personagens
Os seres que actuam, isto é, que vivem o enredo, são as personagens. Em geral
a personagem bem construída representa uma individualidade, apresentando,
inclusive, traços psicológicos distintos. Há personagens que não representam
individualidades, mas sim tipos humanos, identificados antes pela profissão,
pelo comportamento, pela classe social, enfim, por algum traço distintivo comum
a todos os indivíduos dessa categoria. E há também personagens cujos traços de
personalidade ou padrões de comportamento são extremamente acentuados (às vezes
tocando o ridículo); nesses casos, muito comuns em novelas de televisão, por
exemplo, temos personagens caricaturais.
A personagem Sérgio, do romance O
Ateneu, constitui-se numa individualidade, ou seja, numa figura humana
complexa que vive conflitos com o mundo exterior e consigo mesmo. Já o director
do colégio, o Dr. Aristarco, embora não seja
uma caricatura, apresenta alguns traços de personagem
caricatura.
O Nome das Personagens
É interessante observar como os bons escritores se preocupam com a relação
personagem/nome próprio. Veja Graciliano
Ramos, em Vida secas: Vitória é o nome de uma nordestina que alimenta
pequenos sonhos, nunca concretizados; Baleia é
o nome de uma cachorra que morre em consequência da seca, em pleno sertão
nordestino.
Machado de Assis é outro exemplo
brilhante; em Dom Casmurro, o personagem-narrador chama-se Bento e tem sua vida em grande parte determinada
pela carolice da mãe, que queria torná-lo padre.
Lima Barreto também trabalha muito bem
o nome dos seus personagens: Clara do Anjos é
uma rapariga negra que é engravidada e abandonada por um rapaz branco; Isaías Caminha é um escrivão (lembra-se do Pero Vaz
?); Quaresma é um ingénuo nacionalista que
morre às mãos de um ditador.
No romance O Ateneu, o diretor autocrático e majestático,
responsável por um ensino conservador e ultrapassado, é significativamente
baptizado de Aristarco (de áristos,
"óptimo" + arqué, "governo", ou seja, o bom governo, com toda
ironia possível). Conclusão: ao ler bons autores ou mesmo ao criar personagens,
preste atenção aos nomes.
Em Quincas Borba temos um narrador omnisciente.
Veja como o narrador "lê" os sentimentos, os desejos e mesmo o jogo de cena
da personagem; sabemos, por exemplo, que Rubião mirava disfarçadamente a bandeja, que
amava de coração os metais nobres. O narrador conhece as prováveis opções
de Rubião: a preferência pela bandeja de prata aos bustos de bronze.
Narração na 3ª Pessoa e narrador
omnisciente e omnipresente
O narrador omnisciente ou omnipresente é uma espécie de testemunha invisível de tudo
o que acontece, em todos os lugares e em todos os momentos; ele não só se
preocupa em dizer o que as personagens fazem ou falam, mas também traduz o que
pensam e sentem. Portanto, ele tenta passar para o leitor as emoções, os
pensamentos e os sentimentos das personagens.
Nas narrações em terceira pessoa, o narrador está fora dos
acontecimentos; podemos dizer que ele paira acima de tudo e de todos. Esta
situação permite ao narrador saber de tudo, do passado e do futuro, das emoções
e pensamentos dos personagens. Daí dizer-se omnisciente. |