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Umberto Eco: "A Europa moderna tem raízes na Idade Média" |
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Entrevistas
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(HANS SCHLAMP E RAINER TAUB)
O título original de "Baudolino" era "Número Zero".
Pensava noutro livro?
Sim, um romance sobre a redacção de um jornal, onde os
jornalistas procuravam notícias sensacionalistas. Enquanto pensava
qual seria a notícia sensacionalista na Idade Média, lembrei-me da
lendária carta do Preste João.Uma falsificação já cientificamente demonstrada.
Exactamente por isso. Esse documento falsificado pretendeu
convencer as pessoas do século XII que no longínquo Oriente existia
um reino cristão onde corria leite e mel. Como até agora ninguém
identificou o autor dessa notícia sensacionalista, resolvi criá-lo,
chamar-lhe Baudolino, e forjar-lhe uma biografia aventureira. A
carta histórica nasceu no tempo do imperador Frederico Barba Roxa,
na aldeia de Alessandria no norte de Itália, onde eu também nasci.
Depois, transformei Baudolino num filho adoptivo e conselheiro de
Barba Roxa, e os dois tiveram uma tarefa utópica: Durante toda a
vida teriam de procurar o lendário reino do Oriente.
Também se aplica a "Baudolino" o esquema literário do seu
primeiro romance, "O Nome da Rosa", uma colagem de fontes
originais da Idade Média?
Sim, mas com uma diferença: Baudolino é filho de gente de
camponeses, não se entretém com citações intelectuais, como as dos
frades que no Nome da Rosa formavam a elite do tempo. Mas um
narrador nunca poderá criar personagens ao nível dos dramaturgos e
dos satíricos. Quanto mais investigamos a história, menos situações
imaginárias encontramos. Apliquei esta regra a Baudolino, do mesmo
modo que respeitei rigorosamente o que as fontes históricas relatam
de Barba Roxa e de sua mulher Beatriz.
Segundo as teorias literárias clássicas, o escritor deverá ser
útil aos leitores e divertir-se. Para si, destes dois objectivos,
qual foi o mais importante?
Divertir-me a mim mesmo. Em latim, "delectari" - o infinito
passivo.
Então o seu romance é uma viagem ao próprio ego?
Claro. Mas também pretendi ensinar. Mesmo ao escrever um livro de
ficção, torna-se muito difícil a um professor universitário
renunciar a ensinar.
Até que medida tem presente a actualidade ao escrever sobre mitos
e fábulas medievais?
Não há autores históricos que não descrevam também a
actualidade. Quem escrever, hoje, uma biografia de Napoleão,
colocará questões diferentes das equacionadas num livro de há cem
anos. Cada época tem sempre um olhar diferente em relação ao
passado. Por isso é que as raízes da moderna Europa estão na Idade
Média. Poderemos considerar o reino de Carlos Magno como uma forma
embrionária da União Europeia. De um universo de várias línguas,
nasceu a ideia de uma universalidade europeia, e a única diferença
está no facto de, antigamente, a língua universal ser o latim e
hoje, o inglês. Acho que os meus leitores vão descobrir mais
paralelismos históricos entre o presente e o passado que eu próprio.
Baudolino procura sem desistir a utopia do reino do Oriente. Mas
na Europa, pelo menos desde o fim do comunismo, o pensamento utópico
é tido como anacrónico e obsoleto. A humanidade não pode
viver sem utopias?
Estou inteiramente convencido disso. Logo que as grandes utopias
históricas ruíram, começou o movimento contra a globalização. Isto
é, um desejo de uma forma de vida totalmente nova. A actual oposição
ecológica contra a globalização tem muita utopia. Mas não tenhamos
dúvidas: a utopia só é boa enquanto não se transformar em realidade.
Logo que Lenine tentou realizar a utopia de Marx, transformou-a num
horror. A utopia não é um objectivo em sim mesmo, mas um horizonte
em movimento.
Simpatiza com o movimento de protesto contra a globalização?
Concordo com os objectivos, repudio os métodos que utiliza.
Antes das últimas eleições italianas, escreveu um artigo em que
apelava a um "referendo moral" contra Berlusconi. Mas ele agora é
primeiro-ministro. Que fazer?
Perdemos. Lutei contra Berlusconi e outros por praticarem uma
política que só beneficia os ricos. Tentei, em vão, recusar a oferta
fiscal que ele ofereceu, a mim e a outros.
No mesmo artigo, atacou a "ideologia do espectáculo" que reina a
nível mundial.
Isso começou em 1960, com a eleição de John F. Kennedy para
presidente dos EUA. Ganha as eleições o candidato mais telegénico. E
desde os anos 60, propagou-se um novo modelo de democracia nascido
nos EUA: dois partidos, controlados pelas mesmas forças económicas,
concorrem perante eleitores que decidem segundo a imagem mediática
que eles transmitem. O conceito de democracia representativa está
ameaçado de esvaziamento na era da globalização. Berlusconi foi só
uma espécie de vanguarda.
Acredita que a democracia dos meios de comunicação social só
fortalece as grandes empresas?
Veja os EUA. Se o presidente eleito não tivesse sido Bush, o
resultado político seria o mesmo: as grandes empresas teriam
rejeitado o protocolo de Quioto, e o presidente seria controlado
pelos grandes grupos económicos que financiaram a campanha
eleitoral. Além disso, só 50 por cento dos eleitores vão às urnas.
Isso significa que o presidente dos EUA só foi eleito por 25 por
cento dos eleitores...
...o que equivale à situação que se vivia no Império romano: uma
minoria de famílias ricas e de generais escolhiam o governo. Não
pretendo ser profeta, mas tudo indica que o movimento democrático
avança nessa direcção. Talvez seja possível, na era da Internet,
descobrir uma nova forma da democracia representativa para
substituir a que está em vigor há 300 anos: uma espécie de
equilíbrio entre Estado e protesto, centro do poder e poder local.
Mas será necessária muita fantasia.
Exclusivo adaptado
DN-"Der Spiegel"
Tradução de José Sousa Monteiro |
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Última Actualização ( Sexta, 01 Julho 2005 )
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