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O processo de fragmentação linguística do Império Romano, responsável pela formação das diversas línguas românicas -- português, francês, espanhol, italiano e romeno, principalmente -- deve ser observado sob o ponto de vista linguístico e político-social. O latim falado nas diferentes regiões do Império Romano tinha uma realidade tão diversificada que, no século III da nossa era, a unidade linguística do império já não existia. Essa imensa diferenciação dialectal é uma das principais causas da transformação do latim nas línguas românicas. A respeito do processo de dialectação, Mattoso Câmara afirma: "A diferenciação dialectal explica-se, sempre, em parte, pela história cultural e política e pelos movimentos de população e, por outra, pelas próprias forças centrífugas da linguagem humana, que tendem a cristalizar as variações e criar dialectos em qualquer território, relativamente amplo, e na medida directa do maior ou menor isolamento das áreas regionais em referência ao centro linguístico irradiador"(Mattoso Câmara, 1979) Várias causas de caráter político-cultural são apontadas por Mattoso Câmara para a diversificação linguística da România: o factor cronológico - as regiões foram romanizadas em momentos diferentes, recebendo, portanto, o latim em diversos momentos de sua evolução; o contacto entre a cultura romana e as diferentes culturas dos povos conquistados; a grande diversidade sócio-económica das regiões conquistadas; Contribuíram para acelerar o processo de fragmentação linguística os seguintes factos históricos: o edito de Caracala - que estabeleceu o direito de cidadania aos indivíduos livres do Império, resultando perda de privilégios para Roma (212); a descentralização política e administrativa do Império - com a criação de doze dioceses, Roma perde o poder de ditar a norma linguística; a mudança da sede do Império para Bizâncio (330); a divisão do Império Romano, provocada pela morte de Teodósio (395), em Império do Oriente e Império do Ocidente (este não resiste às inúmeras invasões).
A formação do Português Alguns factos históricos repercutiram-se na formação da Língua Portuguesa: a conquista romana da Península Ibérica, a invasão dos bárbaros germanos, a constituição dos impérios bárbaros, como o visigótico, o domínio árabe na Península, a luta da reconquista cristã, a formação do reino de Portugal e a expansão ultramarina. A România compreendia o conjunto de províncias do Império Romano onde o latim veio a tornar-se a língua de civilização: as Gálias ( França e parte da Bélgica actuais), a Península Ibérica ou Hispânica, a Líbia, ou litoral mediterrânico da África e a Dácia, nos Balcãs ( Romênia ou Rumânia actuais). A implantação do latim na Península Ibérica constitui factor decisivo para a formação da língua portuguesa, e ocorre no século II a.C., quando as legiões de Roma, depois de longas lutas, conquistam a Hispânia ( mapa da Penísula Ibérica no século III a.C.) e impõem a sua civilização. Com excepção dos bascos, todos os povos da Península adoptaram o latim como língua e se cristianizaram. O território da Península Ibérica ( século I a.C. ) foi dividido, inicialmente, em duas grandes províncias, Hispânia Citerior e Hispânia Ulterior. Esta última sofreu nova divisão em duas outras províncias, a Bética e a Lusitânia, onde se estendia uma antiga província romana, a Gallaecia. A romanização da Península não se deu de maneira uniforme, mas pouco a pouco o latim foi-se impondo, fazendo praticamente desaparecer as línguas nativas. Os povos que habitavam a Península eram numerosos e apresentavam língua e cultura bastante diversificadas. Havia duas camadas de população muito diferenciadas: a mais antiga - Ibérica - e outra mais recente - os Celtas, que tinham o seu centro de expansão nas Gálias. Muito pouco se conservou das línguas pré-romanas. Há resquícios apenas na área do vocabulário. Quando se deu a queda do Império Romano, a Península Ibérica estava totalmente latinizada ( no século I d.C.). Nesse quadro de mistura étnica, o latim apresentava feições particulares, mesclado de elementos celtas e ibéricos, basicamente no vocabulário. Por volta do século V, a Península sofreu invasão de povos bárbaros germanos - suevos, vândalos, alanos e visigodos. Com o domínio visigótico, (mapa da Europa do século V ) a unidade romana rompe-se totalmente. Os visigodos romanizaram-se: fundiram-se com a população românica, adoptaram o cristianismo como religião e assimilaram o latim vulgar. Rodrigo, o último rei godo, lutou até 711 contra a invasão árabe, defendendo a religião cristã, tendo como língua o latim vulgar na sua feição hispano-românica. O século V marca o início do Romanço-- período que se estende até ao começo do século IX, em que ocorre a grande diferenciação do latim numa multiciplicidade de falares. Trata-se de uma fase de transição, que resulta no aparecimento de textos escritos nas diversas línguas românicas. Dentre esses falares intermédios, é o romanço Lusitânico, bastante inovador, o que nos interessa principalmente. No século VIII, os povos muçulmanos invadiram a Península Ibérica . Compreendiam os árabes e os berberes e eram chamados de mouros pelos habitantes da Península, que foi totalmente dominada. O árabe era a sua língua de cultura e sua religião, o Islamismo. Tanto a língua como a religião eram muito diferentes da língua falada na região e não houve imposição de uma ou outra. A língua árabe era a oficial, mas o latim, já bastante diferenciado, era a língua de uso. Extremamente diversificado, o latim continuou a evoluir entre a população submetida. Como resultado da interpenetração da língua árabe e da língua popular de estrutura românica, o moçárabe era falado pela população cristã que viveu sob o domínio árabe. Nas montanhas das Astúrias (norte da Península) tem início, então, a Reconquista Cristã - guerra militar e santa, abençoada pela Igreja e que provocou importantes movimentos de populações. Partindo de um núcleo de resistência (restos dos exércitos hispano-visigóticos e cristãos rebeldes), o movimento foi alastrando para o sul, recuperando os territórios perdidos. Foi então que se formaram os reinos de Leão, Aragão, Navarra e Castela. No reinado dos reis católicos da Espanha, Fernando e Isabel, encerra-se o período de dominação dos árabes, que durou sete séculos e teve o importante papel de desencadear a formação de Portugal como Estado monárquico. Com a finalidade de libertar o território ibérico, nobres de diferentes regiões participaram da guerra santa. D. Henrique, conde de Borgonha, pelos seviços prestados, recebeu do rei de Leão e Castela o Condado Portucalense - território desmembrado da Galiza, junto ao rio Douro. A língua desse território era a mesma da Galiza. Coube a seu filho, D. Afonso Henriques, iniciar a nacionalidade portuguesa, como primeiro rei de Portugal, reconhecido por Afonso VII, rei de Leão, e pelo papa Alexandre III. Ao se separar da Galiza, Portugal vai estendendo os seus limites através de lutas contra os árabes e, com a conquista do Algarve, fixa os limites actuais de Portugal. A língua falada era o romanço galego-português, que apresentava relativa unidade e muita variedade e dá origem ao galego e ao português.
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